domingo, 29 de outubro de 2017

Engenhos no Rio Grande do Norte, século XVII

Por João Felipe da Trindade

No final do século XVII  havia uma preocupação para ativar engenhos no Rio Grande do Norte. Entre as sugestões para ativação e aumento estavam o Cunhaú, Potengi, Ceará-Mirim e Ganhâmû. Esse do Potengi pertencia ao capitão-mor Manoel de Abreu Soares, o de Cunhaú, ao coronel Antônio de Albuquerque Câmara. Essas imagens são do projeto resgate.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Por João Felipe da Trindade
Esse documento foi transcrito a partir de documento do projeto resgate.



As diabruras do coronel Antônio da Rocha Bezerra
Na Ribeira do Sertão de Assú, desta minha jurisdição, distante desta cidade 70 léguas, pouco mais ou menos, se achava um Antônio da Rocha Bezerra exercendo o posto de coronel de cavalaria daquela Ribeira, por provimento do meu antecessor Francisco Xavier de Miranda Henriques, sem que tivesse este tal coronel a sua patente confirmada por Vossa Majestade, o  qual conservei pelo achar provido, e lhe referendei a sua patente com minha entrância neste governo, mas este tal coronel começou a degenerar no seu procedimento, perturbando os moradores da dita Ribeira, com procedimentos impróprios, para sua conservação e de serviço a Vossa Majestade por ser um homem petulante, e inquietador da República, e desobediente aos Ministros de Vossa Majestade, repreendendo-o eu asperamente dos seus incivis procedimentos, e inquietações em que punha aos moradores daquela Ribeira, se fez incorrigível, porque sendo notificado, em uma ocasião, por um despacho do Juiz Ordinário desta cidade para seguimento de uma causa que traria com o capitão João Pedro, morador na mesma Ribeira, logo que o oficial notificou para tal ação, lhe tomou a petição das mãos do oficial e a rompeu fazendo em migalhas, com o soberbo impulso de que procedia o Juiz Ordinário autua-lo e proceder contra ele por ser obediente, e sendo esta matéria pública, teve ele astucia de evadir testemunhas, e provar não haver tal feito, diante do Juiz Ordinário que sucedeu ao ofendido, o qual deu sentença a seu favor, apelada para o Ouvidor Geral da Paraíba, para onde se costumam apelar as sentença dos Juízes Ordinários desta cidade, e na ocasião em que estava o dito Ministro nela em correição, lhe foi a dita sentença apelada, e conhecendo o Ministro a verdade deste caso, por ser público, revogou a sentença do Juiz, condenando em trezentos mil réis para as despesa da Justiça, e em três anos de degredo para um dos lugares de África, como consta da certidão do escrivão de correição, que junta remeto,  por portaria que lhe passei na qual pôs o Ministro o cumpra-se  para o escrivão passar a dita Certidão,  que remeto a Vossa Majestade a vista deste procedimento receoso eu de alguma desordem, que pudesse suceder naquela Ribeira, de que pudesse resultar alguma inquietação aos moradores dela, e a vista da dita sentença, me resolvi a apeá-lo do posto de coronel, tanto por esta razão, como por não estar confirmado por Vossa Majestade. Provi no dito posto de tenente-coronel do mesmo regimento, David Dantas de Faria, homem de bem, e bom servidor de Vossa Majestade, por estar imediato, e desta sorte pus o povo daquela Ribeira em sossego com uma tranquilidade de paz.
Veio a minha notícia que este coronel, preterido, solapadamente, manda sua patente para ser confirmada por Vossa Majestade pelo seu Conselho Ultramarino, motivo por onde dou parte a Vossa Majestade, porque não sucedeu vir a dita patente confirmada, e haver naquela Ribeira algum distúrbio, inquietação, que pode dar um grande cuidado, e resultar alguma desordem, contra o Real Serviço de Vossa Majestade, que Deus Guarde, que ordenará o que for servido, Cidade do Natal,  do Rio Grande do Norte, em 28 de abril de 1756. Capitão-mor do Rio Grande do Norte Pedro de Albuquerque de Melo.

sábado, 24 de junho de 2017




Amélia Reginaldo: nascida para lutar
Por José Edilson de Albuquerque Guimarães Segundo

Em 23 de junho de 1917 nascia em Mossoró, Amélia Gomes Reginaldo, a filha primogênita de Raimundo Reginaldo da Rocha e de Luzia Gomes da Rocha. Amélia tinha recebido inicialmente o nome de Rosa Luxemburgo em homenagem a militante comunista polonesa[1]. Além dela, o casal teve mais três filhos: Carlos Lenine Reginaldo, José Stalin Reginaldo e Jandi Reginaldo.
Amélia cresceu na efervescência e amadurecimento orgânico dos grupos comunistas no Brasil, das greves generalizadas e dos movimentos sociais. Conduzida pelo pai, 1º pessoa a divulgar ideias marxista-leninistas no interior do Rio Grande do Norte, concentrava-se na leitura de autores como Victor Hugo, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Marx, Lênin, entre outros. A influência paterna parece ter estimulado a filha do Professor Raimundinho, como era carinhosamente conhecido o seu pai. Em razão disso, possivelmente, tornou-se líder estudantil na Escola Normal de Mossoró[2] (1930-1933), defendendo melhoria no ensino, igualdade e participação dos alunos e alunas.
A atividade de liderança de Amélia já era realizada por Raimundo Reginaldo, professor da Escola Paulo de Albuquerque, chegando a ocupar o cargo de diretor. Nessa época, participou ativamente da criação da Liga Operária em Mossoró, no dia 10 de abril de 1921, sociedade com fins beneficentes, que teve em Raimundo Reginaldo um dos seus principais expoentes.
A sua determinação, conhecimento e carisma, fizeram com que Amélia Reginaldo exercesse cargo de direção da União Feminina do Brasil, sendo a filiada mais atuante convocando amigas, esposas e filhas de militantes para se engajarem na “luta” do Partido Comunista. A União Feminina do Brasil ocupava-se de assuntos relativos à emancipação das mulheres, por isso era combatida pelos políticos conservadores, que atacavam as filiadas considerando-as como pessoas de comportamento imoral e espalhafatoso.
Aluizia do Nascimento Freire e Maria Francinete de Oliveira em “Amélia Reginaldo: Uma militante esquecida pela historiografia” conseguiram encontrar  em registros do acervo público do Rio Grande do Norte, a atuação destacada de Amélia na insurreição comunista. Todas as mulheres que foram interrogadas afirmaram que se filiaram a União Feminina do Brasil, órgão mantido pelo Socorro Vermelho Internacional, através de Amélia Gomes Reginaldo.
Também atuou como secretária do Comitê popular revolucionário e contribuiu na edição do Jornal “A Liberdade” (Órgão Oficial do Governo Popular Revolucionário – Natal, 27/11/1935), em única edição. Este jornal tinha o professor Raimundo Reginaldo da Rocha, como diretor. O exemplo paterno volta a se manifestar. Em 1º de maio de 1922, foi criada a Associação de Normalistas de Mossoró[3], que, entre outras atribuições, fundou uma revista ilustrada, de publicação mensal, denominada de ABC. Raimundo Reginaldo integrava a comissão de normalistas responsável pela elaboração do periódico. Outra publicação digna de registro foi a criação do jornal “O Trabalho” em 7 de setembro de 1922[4]. Esse periódico era um órgão dedicado aos interesses da Liga Operária de Mossoró, que tinha como diretor-responsável Raimundo Reginaldo da Rocha e redatores, Manoel Assis, Mário Cavalcanti e Lauro da Escóssia.
De todas as mulheres que participaram da insurreição comunista, na cidade de Natal, Amélia foi à única condenada, recebendo uma pena de cinco anos de reclusão. Sua prisão foi decretada em 04 de setembro de 1936. No entanto não chegou a ser presa, pois se tornou fugitiva da justiça. Já a sua mãe, Luzia Gomes da Rocha foi presa várias vezes não sendo respeitada sua condição de nutriz.
Na condição de fugitiva recebe a companhia inseparável de seu pai. Em carta enviada ao tio Lauro Reginaldo, Amélia relata os dissabores enfrentados no interior do nordeste. Escondendo da policia, passaram a vagar por cidades como São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte e Juazeiro do Norte, no Ceará.
Na cidade potiguar, permaneceram pouco tempo. Amélia ficou na casa de um simpatizante do partido. O seu pai, ficou no mato, mas sempre mantendo contato com a filha. Rumaram novamente com destino a Natal. Lá chegando, Amélia se refugia na casa de outro simpatizante do partido. Raimundo Reginaldo conheceu alguns madeireiros e passou a trabalhar com eles, extraindo madeira. Com o dinheiro arrecadado conseguiu comprar uma casa de palha. Algum tempo depois, foi reconhecido e precisou mais uma vez fugir. Foi até a casa onde Amélia estava escondida e resolveram tomar novo rumo, a cidade de Juazeiro do Norte.
Antes de chegar à cidade cearense, aportaram em Mossoró. Foram logo reconhecidos. A polícia ficou sabendo. Prenderam os seus parentes que não tinham nada a ver com a história. Dentre os quais, Luzia, mãe e avó de Raimundo e Amélia, respectivamente. A polícia queria saber do paradeiro dos revolucionários mossoroenses, ameaçando-os de espancamento e torturas. Mesmo assim, seus familiares disseram que não sabia onde eles se encontravam.
Comovidos com o transtorno causado aos familiares, apressaram sua partida. Raimundo se disfarça de cego e mendigo e Amélia de guia com roupa cheia de pano, simulando mulher grávida. Dessa forma, eles chegaram sem sobressalto a Juazeiro do Norte, fixando residência na rua Padre Cícero. Por acaso, Raimundo Reginaldo encontrou o seu primo Zacarias Rocha, residente na cidade vizinha, Crato.
Raimundo Reginaldo montou uma bodega e Amélia foi morar na casa do referido primo. Com saudades da esposa, Raimundo viaja para Mossoró. Conseguiu ir e voltar aparentemente sem problemas, tomando as devidas precauções. Mesmo assim, a policia foi informada da sua presença na cidade. Pouco depois, um advogado amigo de Zacarias disse que tinha chegado uma precatória de Mossoró pedindo a prisão de ambos.
Por essa razão, a família refugia-se em Picos – PI. Foram morar numa fazenda pertencente aos familiares de Francisco Alves Feitosa (Chiquinho), futuro esposo de Amélia.
Nessa época, Raimundo Reginaldo estava com a saúde debilitada. Queixava-se de dor no peito, achava que não veria mais os filhos no Rio Grande do Norte onde viu seu pai falecer, no dia 31 de março de 1938. Em carta enviada ao seu tio Lauro Reginaldo, ela narrou seus últimos momentos:

Depois ele pediu para eu cantar “A Internacional”, o hino de sua paixão. O hino relembrava as suas lutas passadas, os seus ideais de redenção do povo brasileiro. Notando que ele estava muito comovido, eu não quis cantar. Ele insistiu e eu não pude continuar me esquivando. Comecei a cantar. Aí as lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Eu parei de cantar e procurei mais uma vez reanimá-lo”. [5]

Passado algum tempo ele começa a passar mal. Chiquinho, noivo de Amélia consegue chamar um médico, que aplica uma injeção na tentativa de salvá-lo. Não deu tempo. O coração do revolucionário educador Raimundo Reginaldo parou de pulsar, em 31 de março de 1938, na cidade de Picos.
Chiquinho e Amélia. Acervo de família, cedida pelo sobrinho Carlson Reginaldo.

 No mês seguinte ela casou com Francisco Alves Feitosa (Chiquinho), nascido em 19 de maio de 1917, falecido em 25 de maio de 1989. Desse enlace, nasceram os filhos: Reginaldo Nogueira Feitosa nascido em 20 de fevereiro de 1939 e Agnaldo Nogueira Feitosa nascido em 22 de setembro de 1941.
Depois de casada, passa a se chamar Amélia Nogueira Feitosa. Mesmo não exercendo atividade política ideológica nesta cidade e vivendo como uma pessoa simples e recatada, não ficou invisível aos olhos do escritor Renato Duarte. Este, no livro intitulado “Picos: os verdes anos cinquenta[6] em determinado trecho descreve:
Dona Amélia era uma mulher culta para os padrões interioranos da época. Leitora ávida de livros e revistas possuía uma das poucas bibliotecas particulares da cidade: nesse aspecto era uma mulher diferente dos padrões de comportamento feminino de então”.
Conta sua nora Lili que a leitura era o grande vício de Amélia[7].
O sofrimento causado pela perseguição fez com que a família Reginaldo silenciasse boa parte de tudo o que aconteceu durante e após a insurreição comunista. Transformou Amélia em uma mulher centrada no papel de mãe e de avó, mas que não achava bonito não ter o que comer, por isso participava dos movimentos benevolentes, distribuindo alimentos às pessoas menos favorecidas, além de ser uma figura humana reputada como romântica[8].
Em decorrência de problemas de saúde, causados pela hipertensão, diabetes e problemas cardíacos, Amélia faleceu aos 61 anos de idade, no dia 11 de novembro de 1978, em Picos.

Mossoró, 23 de junho de 2017.
Centenário de nascimento de Amélia Gomes Reginaldo.







Referências Bibliográficas:

ESCÓSSIA, L. As dez gerações da família Cambôa: estudo genealógico. 2ª edição. Mossoró-RN: Coleção Mossoroense, 2015. 173 p.
FERREIRA, B. C. O Sindicato do Garrancho. 2ª edição. Mossoró-RN: Coleção Mossoroense, 2000. 184 p.
FREIRE, A. N.; OLIVEIRA, M. F. Amélia Reginaldo: Uma militante esquecida pela historiografia. 7 p.
MOURA, W. B. A Tradicional Escola Normal de Mossoró. Mossoró-RN: Coleção Mossoroense, 2001. 145 p.
NONATO, R. Memórias de um Retirante. 3ª edição. Mossoró-RN: Coleção Mossoroense, 2001. 172 p.
OLIVEIRA, M. F. Amélia (Reginaldo) Nogueira Feitosa. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/memoria/1935/a_pdf/francinete_oliveira_amelia_reginaldo.pdf Acesso em 22 de junho de 2017 as 09:00 h.
ROCHA, L. R. Bangu Memórias de um Militante. Organização: Brasília Carlos Ferreira. Natal-RN: UFRN, 1992.
Jornal O Nordeste, Mossoró 26 de setembro de 1922.
http://blog.esquerdaonline.com/?p=6013&print=pdf Acesso em 22 de junho de 2017 as 8 h.
http://rosaluxspba.org/rosa-luxemburgo/ Fundação Rosa Luxemburgo. Acesso em 22 de junho de 2017 as 07:00 h.









DADOS BIOGRÁFICOS


José Edilson de Albuquerque Guimarães Segundo (Mossoró-RN, 1976), filho de José Edilson de Albuquerque Guimarães e Deodina Silveira de Albuquerque Guimarães, graduado em Ciências Biológicas (UFRN) e Mestre em Geociências, pela mesma universidade, é servidor da Prefeitura Municipal de Mossoró. Iniciou suas atividades literárias, em 2012, na Revista Oeste, com a publicação do artigo Reminiscências: Alto da Conceição, um exemplo de fé cristã, em coautoria com Edimar Teixeira Diniz Filho. Em 2013, publicou, também, na Revista Oeste, outro artigo intitulado: Deoclides Vieira de Sá: um dos mais bem-sucedidos comerciantes mossoroenses. Em 2014, em parceria com o professor Doutor David de Medeiros Leite, publicou o livro: Mossoró e Tibau em versos: antologia poética (Ed. Sarau das Letras). No ano seguinte, publicou o livro: Nas trilhas de meu avô (Ed. Sarau das Letras). É sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar-ICOP.



[1] Nascida em 5 de março de 1871 em Zamoṡc, pequena cidade polonesa então ocupada pela Rússia. Ganhou projeção neste meio marxista alemão em 1899, com a publicação de um ensaio contra o teórico socialista Eduardo Bernstein, amigo pessoal de Engels e executor do testamento de Marx, intitulado Reforma social ou revolução? Na virada de 1918 para 1919 participa da fundação do Partido Comunista Alemão (KPD) e em janeiro deste ano é presa junto com Karl Liebknecht no que foi conhecido como a “insurreição de janeiro”. Ambos são assassinados em 15 de janeiro de 1919 por tropas do governo. Rosa Luxemburgo tinha 48 anos. Extraído de http://rosaluxspba.org/rosa-luxemburgo/
[2] Fundada em março de 1922, foi uma das mais tradicionais instituições de ensino na cidade. A primeira turma formada em 1924 teve dentre os 11 diplomados, Raimundo Reginaldo.
[3] Era formada pelos alunos da Escola Normal de Mossoró.
[4] O Nordeste” de 26 de setembro de 1922.
[5] ROCHA, L. R. BANGU – Memórias de um militante. Org. de Brasília Carlos Ferreira. 1992. Anexos, p. 113.
[6] OLIVEIRA, F. M. Amélia (Reginaldo) Nogueira Feitosa. 2008, p. 3.
[7] Ibid., p. 3.
[8] Ibid., p. 3.